terça-feira, 19 de julho de 2011

Na pátria de chuteiras…

Sempre que é anunciado um jogo da Seleção Brasileira de Futebol, especialmente de Domingo, há festa na maioria das casas.

O brasileiro gosta de futebol! Especialmente quando tem a oportunidade de assistir junto com amigos para ‘comemorar juntos’ tudo o que puderem partilhar: comida, bebida, alegrias e tristezas…

Pão e circo! Nada mais eficaz para manter todos os problemas verdadeiros em baixo do tapete. Tá na hora de começarmos a sentir vergonha…

A derrota da seleção e a verdadeira vergonha

Vinícius André Dias

- Há exatamente 40 anos, Pelé disputava sua última partida com a camisa da seleção brasileira. Esse fez falta ontem.

Eu também torci pela seleção de futebol da CBF. Eu também me irritei com os quatro pênaltis perdidos. Eu também fiquei sentido com a desclassificação. Mas tudo isso durou o tempo da partida – no máximo uma hora a mais, enquanto eu revia os lances num programa esportivo. Em seguida, passou. Como passa a decepção depois de uma péssima sessão de cinema. Como some o desapontamento depois de um show abaixo da crítica. Espetáculos, entretenimento, com algumas lições para a vida, se calhar, mas nada que justifique uma noite mal dormida.

Num país que segue o futebol como se fosse uma religião e que santifica (ou demoniza, dependendo da rodada) os atletas, sei que é difícil pensar assim – eu mesmo já sofri muito com a seleção e com o “meu” Botafogo. Mas penso que assistir a uma derrota do “time de coração” deveria ser tão frustrante quanto assistir a um filme ruim do diretor favorito ou a uma música desafinada do cantor preferido. Quando isso acontece, ninguém sai quebrando o cinema, pedindo a cabeça do diretor ou dos atores. Ninguém fica chorando de raiva pela decepção musical, gritando ao cantor: “você deveria honrar a MPB, seu safado”! Seria uma cena ridícula – tão ridícula quanto as choradeiras e quebradeiras que costumam seguir os jogos de futebol.

Nessas ocasiões de derrota nos campos, também sempre surge o papo de que “os jogadores ganham demais”, “só querem saber de dinheiro”... Concordo com o argumento de que os enormes ganhos financeiros por parte de jogadores de futebol revelam certa inversão de valores, quando comparados aos salários de professores, médicos da saúde pública, policiais e tantos outros profissionais fundamentais ao bom funcionamento da sociedade. Mas o mesmo pode ser dito dos ganhos astronômicos de certas estrelas da música, do cinema, da televisão... De novo: depois de um filme ruim, ninguém sai chamando o ator de mercenário, ninguém o acusa de “ganhar muito”, de “só querer saber de dinheiro” e descuidar da atuação. Não é a mesma coisa? É! Nós é que nos apaixonamos pela coisa errada: o futebol, como conhecemos hoje, é uma atividade de entretenimento, privada! Até mesmo a "seleção brasileira" é particular! E os jogadores são atores do espetáculo, que ganham dinheiro conforme o lucro que geram – como estrelas de cinema ou cantores de sucesso, ou nós mesmos, se pensarmos bem.

Recentemente, assisti a uma entrevista feita pelo Luciano Huck com o Daniel Alves, lateral-direito da seleção e do Barcelona. Ao responder a uma pergunta do Luciano Huck sobre a pressão que sentia antes de um jogo como a final da Liga dos Campeões da Europa, torneio de clubes mais importante do mundo, Daniel Alves respondeu algo como: “pressão eu sentia quando plantava cebola e não sabia se teria o que comer no final do dia. Jogador de futebol, sentir pressão? Agora é tranquilo”. A resposta é sincera e revela duas coisas. Primeiro: enquanto alguns torcedores passam uma semana chorando por conta de uma derrota (e até deixam de se importar com problemas reais, míopes em relação à importância das coisas), os grandes jogadores até podem ficar chateados, mas em seguida entram nos seus carrões, vão para suas mansões e passam a pensar no próximo show. Segundo: geralmente, os jogadores merecem o sucesso. O Daniel Alves passou fome no árido e pobre interior da Bahia, plantou cebola e batalhou muito, suou a camisa para vencer na vida. Hoje é um dos grandes atores de um dos principais espetáculos da Terra, que movimenta bilhões. Ele não merece ganhar o que ganha? Se há muita gente que paga para assisti-lo, que compra suas camisas, é claro que merece!

A gente quer se revoltar contra a riqueza alheia? Pois que nos revoltemos contra quem fez fortuna indevidamente, sem trabalhar, desviando dinheiro público – inclusive no futebol. Que nos revoltemos contra os maus políticos! Esses merecem o nosso repúdio, a nossa revolta, os nossos cartazes, as nossas vaias!

Vergonha

Logo após a partida em que a seleção foi desclassificada da Copa América pelo Paraguai, o Twitter foi inundado de comentários sobre #vergonhabrasil. Eu mesmo postei um. Mas depois fiquei pensando: #vergonhabrasil? Por causa de futebol? Por perder um jogo para o Paraguai? A gente deveria sentir vergonha por não conseguir acabar com o tráfico de drogas e armas na fronteira com o Paraguai... A gente deveria sentir vergonha dos grandes problemas brasileiros: educação abaixo da média, saúde em estado terminal, falta de segurança, infraestrutura desestruturada, corrupção... A gente deveria sentir vergonha da nuvem de roubalheira que parece estar se formando no horizonte dos grandes eventos esportivos no Brasil... A gente deveria sentir vergonha de nós mesmos, por termos eleito para representar nossos interesses mais fundamentais pessoas de quem se desconfiaria até na administração das moedinhas de troco... A gente deveria sentir vergonha por não fazer nada a respeito... A gente deveria sentir vergonha por sofrer mais com o futebol do que com a nossa miséria... #vergonhabrasil!